Da Europa à Eurovisão

esc2017A Eurovisão é cada vez menos a Europa. Se bem que, geograficamente, não haja limites consensualizados para a segunda, para além de se considerar a mesma como uma península que vinda da Ásia abraça o mar, a Comissão Europeia e o Conselho da Europa têm preferido adoptar uma definição aberta, com base nos elementos geográficos, históricos e culturais, que contribuem para definir a identidade europeia.

A escolha do lema deste ano para o Festival Eurovisão da Canção, “Celebrar a Diversidade”, leva-me a recuperar este assunto, uma vez mais.

Uma Europa diversa deve respeitar a raiz helénica do pensamento ocidental e as heranças da civilização romana, do Cristianismo medieval e do Renascimento, bem como as referências desenvolvimentistas da Revolução Industrial e da Europa Contemporânea. Mas a definição de uma ideia de Europa, como criação do espírito humano a partir de uma realidade geográfica actualmente imprecisa, tem-se desenvolvido como uma espécie de luta dialéctica, entre a visão das diferenças e a visão da unidade superior, mas existindo como cultura comum e partilhada, permitindo o reconhecimento de raízes, a orientação segundo os mesmos conceitos fundamentais e a adopção de valores comuns.

A Eurovisão é vista como uma entidade mais abrangente, que está para além das questões económicas europeias; e é apetecível por muitas das mais recentes nações e por outras geograficamente longínquas ao território europeu. O concurso musical da Eurovisão é um palco para que, em três minutos de actuação, se construam – supostamente – representações de identidade nacional, de unificação e de reforço de identidades colectivas, mas também de reposicionamento político através da música. Creio que o lema deste ano exprime a esperança e a aspiração de um espaço que garanta a diversidade extensa, política e socioculturalmente estruturada ao longo dos séculos, mas aberta a outros povos, ao encontro de sonoridades e a uma elevação da estética e da ética.

A recente integração da Austrália no concurso, e sabendo-se de outros países interessados (como a China), revela que a música e a televisão são as vias pelas quais, actualmente, esta “Europa” se afirma e “expande” ou que a podem tornar verdadeiramente importante, como colectivo, à imagem dos outros. 

Jorge Mangorrinha

Professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

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