O Salvador de Portugal?

A 13 de Maio, com ou sem milagre, com ou sem a bênção de Fátima ou do Papa Francisco, uma composição melodiosa em português representará Portugal em Kiev, na próxima edição do maior espectáculo musical do mundo. A sua autora e compositora (Luísa Sobral) era, porventura, a que menos expectativa nos criava no lote de nomes convidados pela RTP, dado que, em princípio, o seu estilo musical não se compaginava com aquilo a que muitos chamam “canção festivaleira”, mas que poucos conseguem definir e pôr em prática, ano após ano, em Portugal, atendendo aos objectivos e aos resultados alcançados.

Só que aconteceu a vitória. Sem surpresa, desde que se ouviram as canções e se perceberam as repercussões nacionais e internacionais de “Amar pelos Dois”.

Então o que é que fez a diferença? – Uma música melodiosa com um arranjo notável, uma letra bem construída que conta uma história simples e se conclui no título da canção, uma performance distinta e uma voz suave. E, ainda, estamos em presença de um outro aspecto, que colheu a simpatia generalizada: a humildade do cantor fez do seu estilo desajeitado, quase hipnótico, um ponto a favor.

Esta é uma canção que se gosta de ouvir. Não cansa. E ela ganhou, também, face a erros de palmatória de outras propostas: temas pouco melodiosos, outros com vozes inapropriadas, ou mesmo letra e vozes em excesso face à qualidade musical. Alguns destes temas tinham características sintonizadas com a predominância eurovisiva, mas não colheram o melhor resultado no conjunto das apreciações dos jurados.

Portugal vai assim amar por dois, por Portugal e pela Eurovisão – se a Eurovisão não nos ama, Portugal ama a Eurovisão –, mas “eu sei que não se ama sozinho”. No contexto da diversidade – “Celebrate Diversity” –, Salvador Sobral pode alcançar um lugar baixo ou excelente, um tudo ou nada. Exige-se deixá-lo, livre, no improviso de base jazzística, que é a sua escola, e com o lado despretensioso que, neste caso e paradoxalmente, faz parte da fórmula da ambição. O retrato de Portugal em 2017 é este, resta promovê-lo nas suas características distintas. E dizer também que, nesse dia, o País é mais do que Fado, Futebol e Fátima, bem como se quer, decididamente, celebrar a música em Lisboa.

Jorge Mangorrinha

Professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

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