Daphne, Fernando Guerra, João Carlos Callixto e Nuno Galopim comentam “Amar pelos Dois”

Continuamos a publicar as mensagens que temos recebido sobre a canção portuguesa para o Festival Eurovisão da Canção deste ano, o tema de Luísa Sobral, interpretado por Salvador Sobral que se intitula Amar pelos Dois. Estamos a verificar uma enorme onda de apoio em torno do nosso tema e os comentários que temos recebido são prova disso. O tema composto por Luísa Sobral para o seu irmão está a emocionar e cativar a opinião pública.

Hoje publicamos mais quatro testemunhos, desta vez de Daphne, Fernando Guerra, João Carlos Callixto e Nuno Galopim.

Daphne, nome artístico de Clara Stock de Aguiar, nasceu no Porto, a 24 de Fevereiro de 1951. Teve uma curta carreira musical em Portugal nas décadas de 60 e 70. Em 1968 gravou o seu primeiro disco a solo e depois integrou o projeto Música Novarum com Nuno Rodrigues, Judy Brennan e António Lobão. Este quarteto fez furor no início dos anos 70 e atuou no Zip Zip. Daphne, então casada com Nuno Rodrigues, formou ainda o Segundo Andamento, mas com curta duração. Numa altura em que o folk estava a dar cartas na cena internacional, a cantora surgiu como vocalista do grupo Family Fair, isto em 1971. Nesse mesmo ano participou no Festival da Canção 1971 com o tema Verde Pino, inspirado nas canções trovadorescas. Depois de um duo com Tozé Brito em Londres e de uma curta aventura na Banda do Casaco, Daphne integra o quinteto Fantástica Aventura, com o qual participou no Festival da Canção 1977 com o tema A Flor e O Fruto. Ainda continuou até início dos anos 80, tendo depois terminado a sua carreira. Vive atualmente em Inglaterra.
Fique com as palavras de Daphne sobre a nossa canção:
Adoro o Salvador!!! A canção é fantástica! Um arranjo lindíssimo para uma voz de mel… Vou apostar que ganha o Festival!!
Daphne

Fernando Guerra nasceu a 4 de Agosto de 1948 e é um dos mais conceituados dermatologistas portugueses. A par com a sua profissão é também letrista e compositor, tendo assinado temas para diversos cantores dos quais se destaca Simone de Oliveira. Foi ele que musicou o célebre Adeus (Palavras Gastas) e Não é verdade, entre muitos outros temas cantados por Simone no final da década de 70.
Fernando Guerra foi dos autores que mais temas teve no Festival RTP, ao todo 14, um autêntico palmarés, alcançando muitas das vezes lugares cimeiros. Entre os seus temas destacam-se Semente, por Paulo de Carvalho (FC1973); O Circo e A Cidade, interpretado pelos Gemini (FC1978); Música Portuguesa, cantada pelos Bric-À-Brac (FC1980) ou Amor Português, por Joana Mendes (FC1982).
Também ele não ficou indiferente à canção de Luísa Sobral e deixou-nos a seguinte mensagem:
Sem ser música “festivaleira” é uma canção bem conseguida em termos melódicos e harmónicos, muito banda sonora Walt Disney, com um magnífico arranjo, de secção rítmica ausente e que a penaliza no ESC. Composta por uma compositora que até então apenas se inspirava em figuras como Norah Jones, de voz fanhosa e em inglês, só dando um ar seu em “Oh Chico”. Salvador Sobral tem voz fraca, mas afinada e original. Acho que o ESC depende muito da política e dos favores entre países. Não será desta que a RTP (e não Portugal, porque é um concurso de emissoras membros da Eurovisão) ganhará, mas mostra o que de bom se faz musicalmente neste nosso pobre e periférico País macerado com políticas erróneas e corruptas. Resta-nos o Sol.
Fernando Guerra

João Carlos Callixto nasceu em Lisboa em 1977. A música portuguesa tem sido a sua paixão, tendo-se debruçado mais dos anos 50 aos anos 80. Em 2005, publicou o livro Na Terra dos Sonhos, uma recolha da obra poética de Jorge Palma, e em 2013 escreveu textos para o livro Portugal Eléctrico, uma história ilustrada das primeiras décadas do rock em Portugal. Em 2010 colaborou na Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX. Entre 2011 e 2012, foi um dos autores da série documental em 26 episódios Estranha Forma de Vida – Uma História da Música Popular Portuguesa, transmitida na RTP. É autor do programa de música Passado ao Presente, transmitido semanalmente na RDP Internacional e também foi autor da rubrica Festival no Coração que também passou diariamente na RDP Internacional e com a qual o nosso site colaborou. João Carlos Callixto é um dos maiores investigadores da música portuguesa e é um dos nossos parceiros em diversas rubricas deste site desde há alguns anos para cá, como também temos ajudado o autor nos seus programas e edições de livros, o último deles Canta, Amigo, Canta. onde recorda a discografia de muitos dos cantores da década de 70. É o responsável pela rubrica Gramofone, emitida semanalmente na RTP Memória. Foi um dos jurados das semifinais do Festival da Canção 2017.
Fique com as palavras de João Carlos Callixto acerca da nossa canção:
“Amar pelos Dois” é a confirmação – em forma de passaporte internacional – que esta geração de músicos portugueses conhece e respeita como nunca o nosso passado coletivo. Luísa Sobral, pela voz do irmão Salvador, baralha e reinventa as tradições, fazendo-nos ser diferentes mas também iguais – e assim se afirma um verdadeiro “primus inter pares”. Que este “grande, grande amor” fraterno se transforme cada vez mais numa “festa da vida”, para que mostremos ao mundo que o nosso “coração não tem cor”!
João Carlos Callixto

Nuno Galopim nasceu a 26 de Agosto e foi o primeiro presidente da OGAE Portugal, tendo começado em funções em 1997, até ao virar do século. Foi também um dos jurados convidados do Festival da Canção 1998, no Teatro São Luiz, em Lisboa, que deu a vitória aos Alma Lusa. Já trabalhou no Diário de Notícias e na Antena 3 e atualmente faz crónicas para a revista Blitz e para o Expresso. No passado ano foi convidado pela RTP para comentar a grande final do Festival Eurovisão da Canção em conjunto com Hélder Reis. Este ano foi um dos consultores da estação televisiva estatal para o Festival da Canção 2017 e que se mostrou bastante empenhado na sua realização e no sucesso que obteve. Irá comentar o Festival Eurovisão da Canção 2017 em conjunto com José Carlos Malato.
Para além destas funções Nuno Galopim é escritor também sendo que no passado ano editou o livro Os Últimos Dias do Rei, acerca dos últimos dias do rei D. Manuel II, no exílio pouco antes de morrer. Uma trama que mistura a ficção com a História de Portugal.
Fique com as declarações deste jornalista, autor e investigador:
E se no meio do barroco do grande aparato, a surpresa chegar pela mais simples das opções? Esta podia ser uma frase para ajudar a escrever a história de “Amar Pelos Dois”, que é uma mais raras pérolas que alguma vez nasceram na nossa história eurovisiva (ou como diriam os Monty Python, “and now for something completely different”…).
Esta é uma canção de uma irmã para a voz de um irmão. Fruto de vivências e cumplicidades partilhadas. Simples na forma, mas cheia de sentidos, suportada por uma letra que, se não tivesse nascido com música, seria desde logo encarada como um belo poema e que é depois encenada por um arranjo que sabe definir um espaço sem nunca roubar protagonismo à voz que nos conduz. E essa é depois a contribuição maior do Salvador Sobral, numa interpretação que sabe sugerir a força daquelas palavras até a quem não entende uma única palavra de português. Comunica, sim. E lembra-me nisso, embora num terreno musical diferente, o tipo de encantamento que brotava dos cantos de fogo e de gelo dos islandeses Sigur Rós quando os começámos a descobrir na reta final dos noventas. Nem eles sequer sabiam ainda falar inglês, mas aquele canto e aquela música uniam-nos. Tal como esta canção tão bem o pode fazer, encontrando nessa capacidade de comunicar uma força maior, mesmo sendo ela feita de coisas frágeis, daquelas que parece que se podem desmoronar ao mais leve toque.
Lembro-me de estar nos ensaios da primeira semifinal do Festival da Canção 2017 e de notar o modo como quem ali estava – dos músicos e seus acompanhantes aos técnicos no estúdio – e de notar como, de cada vez que “Amar pelos Dois” se escutava, a rendição se tornava coisa invulgarmente unânime… Senti que algo estava ali a nascer. E da mais inesperada das canções chegaram os votos do júri e do público. Depois foi aquele fenómeno online a crescer nas semanas seguintes, até à consagração no Coliseu dos Recreios. E, agora, a torrente de emoções anda por aí, para já ainda pelas ondas digitais, a preparar caminho para chegar a Kiev… Receber elogios de figuras como Lys Assia (a primeira vencedora do ESC, em 1956) a Alexandre Rybak (o mais pontuado de sempre – antes da nova modalidade em vigor desde 2016) assinalam ainda que entre os grandes da história da Eurovisão a proposta do Salvador e da Luísa Sobral é acolhida com candura e emoção. Força nisso. E agora rumo a Kiev…
Nuno Galopim

Agradecemos a Daphne, Fernando GuerraJoão Carlos Callixto e Nuno Galopim a sua colaboração. Aceda aqui aos comentários já publicados anteriormente.

Fonte: Festivais da Canção | Depoimentos recolhidos por Miguel Meira

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