“Salvador Sobral – Coração de Herói”, um dos capítulos divulgados

Conforme divulgámos aqui, Salvador Sobral – Coração de Herói é o título do livro de Maria Milene Tavares. Esta autora faz uma abordagem mais pessoal de Salvador Sobral, não esquecendo nunca o que a essência do ser humano que é, e que transporta para o seu lado profissional. Maria Milene Tavares é consultora de comunicação, nasceu em 1975, neste momento vive em Loures.

Os primeiros capítulos são uma espécie de pré-fama-Eurovisão: o “sangue azul”, o “beto que saiu da caixa”, a fuga para Espanha, as noites loucas de Maiorca, dinheiro fácil, o consumo de cogumelos, os estudos de música em Barcelona, a descoberta de Chet Baker e o primeiro disco”.

Foi divulgado na íntegra o 6º capítulo da obra que poderá ler no nosso destaque.

6º Capítulo – Salvador em Todo o Lado: os dias caóticos depois do festival, o súbito interesse das rádios, elogios vindos de um génio, as primeiras polémicas e um fenómeno a galgar fronteiras

E, de repente, tudo mudou na vida de Salvador Sobral.

Dos pacatos concertos em bares para as capas das revistas cor-de-rosa, do obscuro mundo do jazz para as playlists de todas as rádios, do reconquistado anonimato para entrevistas em vários canais de televisão, Portugal inteiro queria saber mais sobre Salvador Sobral, o rapaz com voz de anjo que recebia elogios de todos os lados.

Em entrevista à RTP, o cantor disse que foram dias caóticos, tanto exterior, como interiormente. O jovem que tinha fugido da fama perguntava -se o que estava ali a fazer, no meio de um furacão mediático, a responder a entrevistas de rádios que antes nem queriam falar com ele, o que resultou num sentimento agridoce.

A semana após a vitória no festival foi bastante estranha e irreal. Mas daqui também resultaram situações claramente positivas. O disco que Salvador tinha lançado no ano anterior sem deixar marcas foi redescoberto pelo público e atingiu o top de vendas.

Os convites para concertos aumentaram exponencialmente, com muito mais datas do que aquelas que estavam inicialmente previstas e as salas esgotadas, como contou na altura à Notícias Magazine: “Vou ter mais oito ou dez datas do que teria: Pombal, Sesimbra, Seixal, Faro, Castro Verde, Cartaxo, Ílhavo, CCB, Casa da Música, Convento de São Francisco em Coimbra. E outros. Vou aproveitar.”

Salvador nunca se coibiu de dizer tudo o que pensa. Num estilo descontraído e desconcertante, surpreendeu tudo e todos. Com a sua personalidade genuína, a sua crença de que o que importa é a música e não o embrulho, expôs a superficialidade do mundo de estrelas instantâneas que desaparecem numa questão de meses. Salvador Sobral é um músico a sério que leva a música a sério. A vitória ocorreu num dia especial para os crentes católicos, o 13 de maio, mas Salvador não precisou de um milagre. Um milagre, e uma grande injustiça, teria sido se ele não ganhasse. Só que desta vez, no final, as lágrimas portuguesas foram todas de alegria. As lágrimas de um povo que, devagar, está a aprender a amar-se a si mesmo. Como escreveu Miguel Esteves Cardoso: «Viva Salvador Sobral! Que nunca mais pare quieto.»

Aproveitar era a palavra certa. E babar -se um bocadinho, com boas razões para isso, quando o genial Miguel Esteves Cardoso lhe dedicou uma crónica superelogiosa no Público. O escritor foi dos primeiros a dar voz ao sentimento de espanto perante a atuação de Salvador.

O talento de Salvador não era novidade para MEC, que escreveu entusiasticamente dois dias após o triunfo no festival: “A voz dele é límpida e aérea. Tem uma musicalidade irrequieta que se atreve a cantar por cima do canto. Canta como se toda a música dependesse dele. Cada canção é um tudo ou nada. […] Salvador Sobral é esse artista desde que o ouvi cantar pela primeira vez. Fez -me logo lembrar, pela sensibilidade e pela abertura musical, o jovem Frank Sinatra quando tinha a mesma idade.”

Salvador estava a aprender a lidar com o reconhecimento e quando leu a crónica nem queria acreditar: “Como é que é possível o Miguel Esteves Cardoso escrever sobre mim. […] Tenho quase vergonha de ler essas palavras tão bonitas sobre mim. […] É uma sensação estranha mas agradável», disse à RTP.

Nas muitas entrevistas que deu, Salvador falou sempre sem filtros, sem calculismos ou hipocrisia.

Na entrevista à Notícias Magazine, dada em conjunto com Lena D’Água à jornalista Alexandra Tavares-Teles, falou sem preconceitos sobre bissexualidade: “Sabem, tenho alguma curiosidade pela bissexualidade. É uma forma de amor que nem sequer olha a sexos. É o máximo do amor. Nunca consegui amar um homem.”

Falou também sobre o consumo de drogas no passado. Esta candura e à –vontade eram desarmantes e, ao mesmo tempo, perigosos, como Salvador já estava a perceber: “As pessoas têm de mim uma ideia errada.”

E embarcou igualmente em jogos de fama cujos resultados avaliados a posteriori poderiam ser nefastos. Numa participação no programa da RTP 5 para a Meia-Noite, aceitou o desafio de uma rubrica intitulada “Pressão no Ar”, em que o convidado tem de responder às perguntas com a primeira coisa que lhe vier à cabeça.

Questionado sobre o seu palavrão preferido respondeu em italiano com um “porca puttana!” e desafiado a dizer com que músico português nunca trabalharia nem sequer hesitou: Toy.

Começaram a surgir as polémicas e as pseudopolémicas tão comuns no mundo do entretenimento e essenciais para o espetáculo da vida real que tanto cativa o público.

Criou-se uma linha a separar os que viam em Salvador um rapaz simples e genuíno e os que viam na sua pose e no seu discurso alguma coisa de artificial, criada para despertar a simpatia e o carinho do público.

Mas Salvador nunca se conteve no que tinha para dizer, mesmo que isso fosse considerado inconveniente e inde[pendentemente das circunstâncias.

Ao jornal espanhol El País, contou um episódio divertidíssimo que revela o Salvador traquinas e de coração na boca que seduz os seus fãs pela autenticidade: “Um dia estávamos a tocar uma balada, “Nem Eu” [do músico brasileiro Dorival Caymmi], e no fim fez -se essa pausa preciosa antes dos aplausos, esse momento que eu adoro, e as pessoas desataram logo a aplaudir como loucas. Eu disse, bem, fez -se um silêncio incrível, ainda bem que ninguém se peidou. Alguns riram-se, mas as pessoas não sabiam como reagir. Sou muito inconveniente, sempre fui, e também inoportuno. Não penso no que digo. Mas esse também é o espírito do jazz, o improviso, aquilo que te sai.”

A jornalista espanhola que o entrevistou ficou deliciada com este “ser original, tão angélico quanto irónico. Um desses músicos que fazem falta no mundo previsível da atual música popular”, e rematava em grande: “Salvador, qué buen nombre tienes.”

Só que agora Salvador já não estava a falar para meia dúzia de melómanos ou curiosos. As suas declarações, mesmo as aparentemente mais inofensivas, passaram a ter um alcance brutal. É fácil dizer tudo o que se pensa quando sabemos que ninguém nos está a ouvir. A questão, para Salvador, era ser autêntico e dizer o que lhe passava pela cabeça, mas sabia que a partir daquele momento qualquer coisa que dissesse passava a ser amplificada e mesmo distorcida.

Quando finalmente tinha encontrado a sua personalidade e já sabia quem era de um ponto de vista pessoal e musical, Salvador teve de se confrontar novamente com a pressão desmedida da comunicação social e das redes sociais. Assediado pela imprensa e pelos comentadores das redes sociais, Salvador sabia que era fundamental lidar com alguns aspetos da exposição e ignorar outros, como os comentários maliciosos e azedos que pululam por toda a Internet. Disse que não estava nas redes sociais e que os perfis eram oficiais e geridos pela sua representante, que lhe passava apenas as mensagens positivas, resguardando-o das críticas mais destrutivas. Quando ia ao YouTube ver os vídeos, adotara como lema não ler os comentários.

Ainda assim, como não é possível viver numa bolha, algumas coisas negativas que diziam sobre ele, mesmo que filtradas, acabavam por lhe chegar, como confidenciou ao El País: “Hoje não me preocupa tanto o que dizem sobre mim porque tenho a certeza de quem sou. Claro que às vezes me afeta um bocado. Quando dizem coisas que não são verdade. Por exemplo, que o Salvador é um pedante, o que não está certo, não está… Isso tira-me quatro segundos de tranquilidade e depois esqueço. Por exemplo, no outro dia disse que a nossa canção – não sei porque é que o disse – era um bife tártaro no meio dos hambúrgueres. Então disseram logo que eu era prepotente. E eu disse que era um bife tártaro por dois motivos: por um lado, é uma canção crua; por outro, é um pouco mais sofisticada, e alguém com um pingo de sensibilidade tem necessariamente de o sentir. E então as pessoas diziam, ah, então se não sinto a tua canção sou insensível.”

Como se vê, mesmo relativamente afastado das redes sociais, Salvador corria o risco de se desgastar com todas estas polémicas e assuntos que, de tempos a tempos, ganham proporções inimagináveis e incendeiam a Internet.

Se a canção tinha conquistado muitos fãs, também havia um grupo de haters dedicados a denegrir Salvador e a sua música. Estes ataques incompreensíveis e cheios de azedume mereceram uma resposta do humorista Bruno Nogueira, que saiu em defesa de Salvador: “Chegado do estrangeiro, vejo as habituais “polémicas” e fogos florestais de Facebook e Internet em geral. Ao que me dão a perceber, houve zaragata cibernética por causa do Festival da Canção. Vista de longe, a equação é fácil de entender. O Salvador Sobral tem talento de sobra, carisma, e uma personalidade mais do que bem definida. Para seu grande azar, acresce ainda o facto de parecer ser um tipo culto e com bom gosto. É por isso bastante revelador e previsível que num mundo de fenómenos descartáveis esta mistura seja difícil de digerir. Mas, felizmente, isso passa ao lado de quem sabe para onde aponta. Caramba, como é difícil gostar do peixe que vive fora do cardume.”

Salvador tinha de encontrar forma de manter a sanidade num ambiente que à sua volta era de loucos. Uma loucura que, apesar disso, gerava um tipo de abordagem na rua muito diferente das abordagens dos tempos do Ídolos.

Agora as pessoas queriam agradecer -lhe pelas emoções que transmitia na canção, dar-lhe os parabéns pela interpretação e desejar -lhe boa sorte para o Festival da Eurovisão. Nada a ver com as perguntas intrusivas do passado. Salvador sentiu -se confortável com essa exposição mais diretamente relacionada com o seu trabalho enquanto artista e não por qualquer criação televisiva de um fenómeno efémero. O sucesso galgara fronteiras e não estava restrito ao nosso retângulo.

No estrangeiro, “Amar pelos Dois” conquistava fãs a um ritmo diário, com milhares de visualizações no YouTube, e já estava no 4.º lugar das casas de apostas para a Eurovisão.

Este sucesso repentino, depois de anos de estudo afincado e de trabalho na sombra, encontrou um Salvador muito mais maduro, que nunca perdeu o sentido da realidade.

Por exemplo, não lhe escapou a ironia de ser a televisão, da qual tinha fugido, a pôr os holofotes no seu trabalho discreto: “É paradoxal que eu, que fugi da fama, me veja agora imerso neste festival que é cume da música Popular”, disse ao jornal espanhol.

Ironias do destino à parte, para Salvador, o festival já tinha sido uma vitória. A generalidade do público tinha ficado a conhecê -lo, o interesse no seu trabalho aumentara e os convites também. O músico sempre se declarou grato ao festival e a tudo o que o evento lhe proporcionara. Só que ainda faltava uma parte fundamental do percurso: levar a canção, cada vez mais bem cotada, a Kiev. E uma grande sombra pairava sobre Salvador e todos os que o rodeavam. Estaria ele em condições físicas de aguentar as exigências da viagem e do festival?

Fonte: Revista Sábado

Um pensamento sobre ““Salvador Sobral – Coração de Herói”, um dos capítulos divulgados

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