“A Luz do Salvador” por Ana Bacalhau, vocalista dos Deolinda

Ana Bacalhau nasceu em 1978. É conhecida por ser a voz do grupo Deolinda, do qual também faz parte Pedro da Silva Martins (FC2017). Com este grupo tem inúmeros êxitos que desde 2006, como Fon, Fon, Fon, Movimento Perpétuo Associativo, Um Contra o Outro, Fado Toninho, Seja Agora ou Corzinha de Verão. Encontra-se prestes a lançar o seu primeiro trabalho a solo intitulado Nome Próprio que conta com inúmeros compositores de destaque. Desde 2011 que é cronista da Notícias Magazine e tem também um site onde publica a suas crónicas.

Esta semana a sua crónica intitula-se A Luz do Salvador, e claramente fala do vencedor do Festival Eurovisão da Canção 2017, Salvador Sobral e sobre muito do que se tem falado ultimamente. Leia aqui a opinião de Ana Bacalhau.

Quando nos apontam um holofote, tapamos a cara. Subimos as máscaras que nos escondem o verdadeiro rosto e guardamo-nos das agruras emocionais de um mundo sempre pronto a destruir qualquer sinal de singularidade.

Porque quando alguém assume a sua singularidade, parece haver uma quantidade considerável de pessoas que reagem de forma visceral, rejeitando aquela proposta de ser e de estar com muita veemência e até alguma bílis.

A diferença assume-se na forma de questões religiosas, sexuais ou de cor da pele, mas também pode estar na linguagem corporal, a forma como o corpo responde aos estímulos e dialoga com os outros corpos.

Há, ao que parece, uma estandardização dos movimentos aceitáveis quando se realiza uma série de atividades. Falemos de música. Segundo o que percebi, dos comentários que vou lendo internet fora, um artista performativo não pode balançar o seu corpo ao ritmo da música que vai criando se não obedecer a uma coreografia. Ou, se não obedecer a uma coreografia, terá pelo menos de reagir de forma considerada «normal» ou «adequada».

O medo da diferença toma-nos de assalto, colocamos as máscaras da normalidade e contra-atacamos. Porque, parece-nos, aquele ato tão simples de se ser quem é não passa de uma provocação. Ali está alguém que, sob a luz forte dos holofotes, ousa mostrar o verdadeiro rosto. É como se esse ato de liberdade nos viesse provar aquilo de que desconfiávamos: somos cativos da «normalidade». Vamo-nos limando, limitando, até cabermos no molde apertadinho do «socialmente aceitável».

Tememos ser quem somos, porque se formos rejeitados a dor é fulminante. E rejeitamos, pois, quem se atreve a ter a ousada coragem de se expor, tal como é, sem moldes.

Preciosos aqueles que enfrentam os holofotes sem se encandearem, porque irradiam uma luz própria, forte, incandescente, singular. Uma luz que todos nós temos, mas que só alguns se permitem acender.

Recorde no vídeo em baixo alguns dos temas de maior sucesso dos Deolinda, interpretados por Ana Bacalhau.

Fonte: Notícias Magazine, Festivais da Canção

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