Paulo Abreu Lima fala sobre o Festival da Canção e de Salvador Sobral

Paulo Abreu Lima nasceu em Angola, a 23 de Novembro, mas reside em Beja há muitas décadas. É autor e compositor e é no Alentejo que encontra paz e serenidade para compor canções simples e despretensiosas, como o próprio autor. Participou em inúmeros Festivais da Canção e para além disso tem feito vários temas para cantores consagrados como a versão portuguesa de A Thousand Years, que Sting interpretou com Mariza nos Jogos Olímpicos de 2004. A par disto o célebre tema Feira de Castro, de Mariza, também é da sua autoria. Foi letrista também de inúmeros temas quer para Mariza, quer para Carla Pires.

A sua primeira participação no Festival da Canção foi em 2001, com o tema Da Terra À Lua, no qual foi autor, compositor e intérprete em conjunto com Lura, na 3ª semifinal. Voltou a concorrer como letrista em 2006, com o tema As Minhas Guitarras, interpretado por Cuca Roseta. Em 2009 foi o letrista e compositor da canção Lua Sem Luar, que Nuno Norte interpretou. No ano seguinte foi o letrista responsável por Arco-Íris Dentro de Mim, que as Ouro interpretaram e em 2011 na semifinal online fez a letra para o tema Voar Alto, interpretado por Carla Pires. Em 2014 voltou a participar no Festival RTP, assinando novamente a letra de um dos temas mais fortes, Nas Asas da Sorte, interpretado por Zana.

Deu uma entrevista recentemente ao jornal Diário do Alentejo, onde fala sobre a sua carreira e os Festivais da Canção, sendo o texto de Paulo Barriga. Poderá ler a entrevista completa aqui. Passamos a citar a entrevista dada, onde Paulo Abreu Lima fala sobre os Festivais da Canção.

Diário do Alentejo – O que lhe pareceu este processo de escolha do representante português ao Festival Eurovisão da Canção?
Paulo Abreu Lima – Normalmente, nos festivais, o que sentia é que não era a melhor canção que ganhava. Havia muito plástico e muita coisa “bonitinha”… Sempre achei que num concurso deste tipo as pessoas se deviam preocupar mais com o português, com a letra. E se o representante é português, a letra deve ser escrita em português e deve ter uma grande preocupação nesse sentido, independentemente até da interpretação do artista. Temos de apresentar aquilo que produzimos e que é nosso. Depois, as pessoas ou gostam ou não gostam. Se, aqui no Alentejo, o cante faz parte da nossa alma, não podemos, para agradar aos turistas, andar a cantar o fandango ou o malhão… Acho muito bem que se misturem coisas, eu próprio faço música para Cabo Verde ou para Angola, mas tento pôr-me nessa alma…
Bom, mas este ano, no festival, não foi bem assim… No geral não gostei muito do que ouvi. Disse-se que ia haver inovações, mas não achei grande inovação. Mas desde o início que para mim, e isso disse-o várias vezes a amigos e a músicos, havia uma canção que merecia ganhar, mas que não teria hipótese, porque não era do agrado do Festival da Canção: era a música do Salvador Sobral, a que ganhou… Tem uma letra que toca cá dentro. É cantada com muita sensibilidade, depois, é aquela forma de ele a interpretar, de estar no palco, aquela dádiva, nota-se que nunca canta de igual forma… Há muito sentimento ali…

DdA – Está então a dizer que este novo enquadramento do Festival da Canção não trouxe nada de novo, para além do “acaso” desta canção ter aparecido?
PAL – Teve a sorte de trazer esta canção e teve a sorte de ela passar. Normalmente, e aqui não é o mérito do Festival da Canção em si, teria passado outra qualquer. Tivemos lá os Virgem Suta com uma canção muito mais festivaleira e outros, como a Celina da Piedade… E nós temos a mania de apostar no que é mais festivaleiro e isso a mim não me agrada… O Emanuel ganhou porque era mais festivaleiro, tinha lá uma miúda quase nua a dançar e não sei o quê, sempre com as mesmas repetições. Isso, para quem escreve, para quem toca, para quem aprecia, muitas vezes não é o mais agradável. Normalmente as canções são festivaleiras mas não prestam… O que não é o caso daquelas que atrás referi, como é óbvio.

DdA – O Salvador Sobral foi, então, um fenómeno isolado?
PAL – Isolado e diferente. As pessoas estavam cansadas de tanta luz e de tantos efeitos, de foguetes e de miúdas em palco… este ano tivemos a sorte de o Salvador Sobral aparecer e revolucionar tudo isto. A luz em palco, o foco, era ele próprio e a sua canção cuja letra, mesmo sem ser traduzida, tinha sentimentos que eram entendidos por todos aqueles que a escutavam. É quase como o fado da Amália ou como as belíssimas canções do Leonard Cohen que eu ouvia numa cassete, quando estudava em Évora, sem perceber patavina de inglês… As histórias dele entravam-me na alma e permitiam-me a mim muitas outras histórias… Mas voltando ao Salvador, acho que tivemos mesmo muita sorte…

DdA – Subentendo que para o ano tudo voltará ao normal, no que toca às participações portuguesas no Festival Eurovisão da Canção?
PAL – Não, se calhar isto pode servir de aprendizagem. Se calhar até foi um ponto de viragem não apenas para as participações portuguesas, mas para toda a Europa. É provável que possam agora aparecer coisas diferentes, para melhor.

DdA – Mas coisas diferentes já antes tinham sido tentadas no festival, inclusivamente pelo Paulo…
PAL – Participei em 2006 com a Cuca Roseta, que depois se tornou conhecida, a convite do Ramon Galarza. Entrámos com um fado, embora com uma batida um bocadinho diferente e ficámos em terceiro lugar. O Ramon ficou bastante aborrecido. Percebi mais tarde que não ganhámos porque era um fado… dois anos depois foi tudo para fado…

DdA – Foi o ano que concorreu com a Carla Pires?
PAL – Sim, com canção “Voar alto”, que depois entrou no disco dela, com mais cinco letras minhas. Se formos ler o que se escreveu desta canção, quando o disco foi editado, toda a gente diz que não percebeu como é que nem sequer foi classificada para o Festival… As pessoas vão mudando, o próprio Festival vai mudando… houve uma altura em que entrou um travesti e ganhou. A seguir começam a aparecer as imitações por todo o lado. Cá me parece que, para o ano, vai aparecer gente a tentar colar-se a este “estilo” do Salvador Sobral.

DdA – Por falar em estilo, o Paulo Abreu Lima também já cantou no Festival da Canção…
PAL – Já. Foi a primeira e a única vez, em 2001, com a Lura.

DdA – Qual era a canção?
PAL – “Da Terra à Lua”, a canção foi feita na altura em que a gente sonhava…

DdA – Como é que se sentiu em palco?
PAL – Senti-me um bocado mal. E apenas fui porque a Lura disse que só cantava se fosse acompanhada e eu decidi ir com ela. Ainda hoje estamos para perceber por que é que a nossa canção estava falada para orquestra e tinha umas meninas nos coros e acabou por ir sem orquestra, nem com coros. A nossa canção, pelo que me pareceu, era muito forte…

DdA – Voltaria a subir a um palco?
PAL – Não.

DdA – E a fazer uma letra para o festival?
PAL – Porque não? Se as pessoas me pedem letras porque gostam que eu as faça, como um Ramon Galarza ou um Jan Van Dijck… O Marco Paulo uma vez gostou muito que eu lhe fizesse uma canção e, daí, não veio mal nenhum ao mundo. E se calhar se o Emanuel me pedir também faço, pode acontecer é que, depois, não se identifique muito com a minha letra… Eu tenho é de me identificar com aquilo que faço e de sentir aquilo que escrevo…

Fonte: Diário do Alentejo, Paulo Barriga, Festivais da Canção

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